07/06/2013
“Ler é poder” é bem mais que um slogan preguiçoso para campanhas de promoção do livro. O conhecimento obtido por meio do texto é, como
disse Voltaire, como o fogo, e de fato pode conferir poder ao leitor, apoderá-lo. E esse poder ao leitor é muitas vezes obtido com a transferência, isto é, retirando-se poder de um grupo. É por isso que livros eram tão temidos pelos “poderosos”; por isso um livro para existir tinha até pouco tempo que conter as autorizações do Rei (“com privilégio de S. Majestade”) e da Igreja (“
imprimatur, nihil obstat”). Foi preciso deflagrar um Estado sem Rei e sem Igreja — a França revolucionária — para que um texto tão poderoso e apoderador como “
A Declaração dos Direitos do Homem” pudesse ser publicado, disseminado e promovesse revoluções mundo afora. Mesmo no Brasil, onde a imprensa era proibida, a “Declaração” incendiou ideias libertárias (em “Revoluções” e “Insurreições” logo massacradas).
A utopia da “
República das Letras” — o acesso livre e completo ao conhecimento para todos — parece ter se concretizado,
tecno-magicamente, com a internet. Ou parecia. McLuhan (sempre ele)
já falava, há 50 anos, em como um mundo “circuitado”, onde as ideias circulassem sem barreiras de tempo e espaço, impediria a manipulação dos fatos pelo governo, o fascismo, a demagogia.
Portanto é tanto decepcionante quanto paradoxal que o país que deu ao mundo o poder livre à informação (internet) seja também o pioneiro em condenar pessoas por exercer tal poder. Essa semana começou o julgamento que provavelmente condenará
Brad Manninga passar o resto da vida na prisão. O crime do soldado de 22 anos foi publicar na internet um video de fuzileiros americanos matando civis iraquianos e jornalistas em uma “orgia de sangue” (desmentindo a versão oficial do governo dos Estados Unidos para o “incidente” ocorrido na “Operação Liberdade”). Manning ainda liberou ao público centenas de documentos “classificados”, por meio da
Wikileaks, o grupo de radicais da informação que torna transparentes os segredos e conchavos dos governos. O líder da Wikileaks, Julian Assange, procurado
oficialmente por um processo de atentado ao pudor na Suécia, está há quase três anos refugiado na Embaixada do Equador em Londres.
Melhor sorte não teve Aaron Swartz. O brilhante programador tinha 26 anos quando enforcou-se, após ser condenado por “fraude eletrônica”.
Oficialmente, seu crime foi criar um sistema que baixava e tornava público os
artigos científicos de uma biblioteca acadêmica digital. Isto é, foi condenado por divulgação científica. O que incomodava os poderosos, no entanto, era seu ativismo cibernético. Ele foi o fundador do Watchdog.net, que agregava e publicava dados sobre os congressistas americanos; publicou um
Manifesto da Guerrilha para o Acesso Livre e conduzia pesquisas sobre corrupção nos governos em Harvard (no laboratório custeado pelo bilionário brasileiro Edmond J. Safra). Era também um dos principais articulares contra o SOPA, a iniciativa do Congresso norte-americano de, com o pretexto de combater a pirataria, “regular” a internet (para, de fato, controlá-la).
Se a SOPA tivesse sido implantada, talvez o caldo não estivesse entornando agora em Istanbul, onde protestos contra a construção de um shopping center em uma praça podem descambar em guerra civil. Com uma legislação como o SOPA, e um botão para desligar a internet, o presidente Erdogan ficaria mais tranquilo. “Para mim, a midia social é a maior ameaça à sociedade”,
disse a autoridade turca, sem se tocar de que é a sociedade que está sendo ameaçada pelo regime, e não o contrário. Foi o povo turco que se mobilizou, compartilhando o fogo da informação, e desmascarando o governo. Está lá, na velha Declaração: “nenhum indivíduo pode exercer poder que não emane da nação, do povo”.
Culpar a midia social por disseminar informação e aglutinar a opinião e a vontade de um povo é de se esperar de regimes “autoritários”. Porém sociedades “democráticas” estão bem atentas ao poder da informação instantânea e, se não podem contê-la, talvez tentam vigiá-la.
Veio à tona uma apresentação de powerpoint, supostamente da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, explicitando que o governo dos Estados Unidos tem livre acesso a servidores da Google, do Facebook, Yahoo, entre outros. Assim,
supostamente, as fotos que você postou do seu gato — assim todas as opiniões que você emitiu, e tudo o que você pesquisou online — são de conhecimento do governo norte-americano. Durma bem.
Pode ser que o problema não esteja na internet, mas no governo. Ou governos — norte-americano, turco, brasileiro, qualquer um. Pode ser que eles já não se adequem à internet, ao poder que emana do povo circuitado pela internet. Talvez os governos sejam o
Ancient Régime, que ficará para trás (pode ser que tenhamos de guilhotinar algumas cabeças). Segundo o líder do “Terceiro maior partido dos Estados Unidos”,
Larry Page, do Google, “há muitas coisas importantes e sensacionais que podemos fazer. Mas não podemos porque são ilegais, ou não são permitidas pelas regulamentações. Isso faz sentido. Não queremos que o mundo mude rápido demais. Talvez só uma pequena parte do mundo.” Bem vindos à
googleocracia.
Julio Silveira é editor, formado em Administração, com extensão em Economia da Cultura. Foi cofundador da Casa da Palavra em 1996, gerente editorial da Agir/Nova Fronteira e publisher da Thomas Nelson. Desde julho de 2011, vem se dedicando à Ímã Editorial, explorando novos modelos de publicação propiciados pelo digital. Tem textos publicados em, entre outros, 10 livros que abalaram meu mundo e Paixão pelos livros (Casa da Palavra), O futuro do livro (Olhares, 2007) e LivroLivre (Ímã). Coordena o fórum Autor 2.0, onde escritores e editores investigam as oportunidades e os riscos da publicação pós-digital.
A coluna LivroLivre aborda o impacto das novas tecnologias na indústria editorial e as novas formas de relacionamento entre seus componentes — autores, agentes, editores, livrarias e leitores. Ela é publicada quinzenalmente às quintas-feiras.